RESENHA: Maria Bethânia em São Paulo – Carta de Amor

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Foto: reprodução internet – João Milet Meirelles

O último espetáculo de Maria Bethânia apresentado em São Paulo – Bethânia canta Chico Buarque – tinha deixado um travo amargo. Errático, com problemas de roteiro e canções pouco ensaiadas, mostrava uma   Bethânia pálida e sem grande inspiração.

Pouco mais de um ano depois, a cantora voltou à cidade pra desfazer essa impressão. E o fez com imensa propriedade. Carta de Amor, seu novo show, é excelente.

Partindo de uma premissa perigosa, há aparente mágoa em vários momentos. A canção que dá título ao espetáculo é uma suíte de quase seis minutos cheia de intenções, agora claras em cena, com seus versos compilados pelo compositor Paulo César Pinheiro: “não mexe comigo, eu não ando só”, “você é oco do oco do oco do sem fim”, “sou como a haste fina, qualquer brisa verga, nenhuma espada corta”. Não dá para passar batido ou indiferente  ao episódio amargo do seu quase blog,  em que Bethânia foi malhada tal qual um Judas moderno da música popular.

Da abertura grandiloquente ao final apoteótico, o show soa coeso, com roteiro bem amarrado. Na maioria das vezes as  canções dialogam entre si, sem sustos ou sobressaltos, complementando e expandindo temas similares; outras vezes se contrapõem, mostrando que no universo da baiana tudo pode ter dois lados.

O primeiro ato aparece mais denso na sua composição – Canções e Momentos (Milton Nascimento) e Sangrando (Gonzaguinha), as primeiras músicas, versam sobre o ofício da intérprete e dá pouca margem para considerações dúbias: o palco é o seu lugar, o canto é o que a sustenta.

Seguem-se ótimas passagens: Dona do Raio e do Vento (Paulo César Pinheiro) Fogueira (Ângela RoRo) e Na Primeira Manhã (Alceu Valença) em arranjo tenso abre espaço para Bethânia deitar e rolar no histrionismo tão característico na sua carreira. É o melhor momento desse ato.

Claro, nem tudo são flores: Não Enche (Caetano Veloso), em que pese o delírio da platéia, desde a estréia no Rio de Janeiro, mostra uma Bethânia pouco a vontade com a letra e correndo atrás da melodia, sem alcançá-la.

No final da primeira parte do espetáculo, outro acerto, faz a gente esquecer do deslize: Quem Me Leva os Meus Fantasmas (Pedro Abrunhosa), bela balada de acento pop do compositor português, vem quente e é ótimo mote para banda enfim aparecer no seu solo.

O segundo ato, é mais leve e alegre.

Uma Bethânia totalmente à vontade, ainda que concentrada, dá vida  e graça aos sambas de roda – Quixabeira (Carlinhos Brown) e Reconvexo (Caetano Veloso), Minha Senhora  e Viola Meu Bem (domínio público); mostra uma releitura acertada de A Casa é Sua (Arnaldo Antunes); canta o amor nem sempre correspondido em  Escândalo (Angela Rorô); e surpreende com Dora (Dorival Caymmi), quase irreconhecível em outro ótimo arranjo.

Ainda tem a inédita de Chico César, Estado de Poesia, com a cantora fazendo bonita dobradinha com Wagner Tiso ao piano, o novo e comentado maestro que substitui Jaime Além.

Em resumo, Carta de Amor é um espetáculo típico de Maria Bethânia. Belo e pungente, armado tal qual uma ópera, faz jus à máxima da cantora que diz ao seu público que pode vir tranquilo pois não vai ver mixaria. O público sempre obedece e, até onde eu saiba, nunca se arrependeu.

Carta de Amor – Maria Bethânia
Quando: 30 e 31 de março
Onde: São Paulo – HSBC Brasil
Review: * * * * 1/2

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