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SHOW: Jards Macalé – Banquete dos Mendigos

A estreia de “Banquete dos Mendigos”,  na noite desta terça-feira em São Paulo, pouco lembrou o show original de 1973.  Mas teve o fino de Jards Macalé. E isto é ótimo.

Jards Macalé na primeira noite de Banquete dos Mendigos. 16.7.2013
Jards Macalé na primeira noite de Banquete dos Mendigos. 16.7.2013

Projetado para comemorar os 40 anos do Banquete dos Mendigos, show colaborativo (lançado anos depois em lp duplo) realizado em 1973 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que pelo contexto histórico da época, auge da ditadura, se tornou um marco da resistência e dos direitos civis no país, o espetáculo apresentado nesta terça-feira em São Paulo em quase nada lembrou o original. Em cena, o fino da obra de Jards Macalé predominou com austera competência.

Jards é um dos grandes da música brasileira. Revista em perspectiva, sua obra tem lugar cativo entre o que de mais instigante e moderno a MPB produziu em todos os tempos. Bebe na fonte do rock e também na perene história do samba. O compositor, que completou 70 anos em 2013, foi recentemente homenageado com um disco em que o repertório do seu primeiro LP foi regravado por nomes da cena indie paulista (veja aqui detalhes do álbum E volto Pra Curtir). Qualquer tributo é merecido. Mais interessante ainda é ver o próprio Jards Macalé contando sua história. No palco do Sesc Vila Mariana, os 17 números apresentados deram boa margem de avaliação desta carreira.

Logo de cara, “Let´s Play That” (Jards / Capinan), “Farinha do Desprezo” (Jards Macalé)  e “Negra Melodia” (Jards / Waly Salomão), executadas em sequência,  soam como um extrato de relevância – as melodias dissonantes, harmonias em que ausências precedem a surpresa e os ecos de linhas jazzisticas muito destacadas com a dupla de sopros da ótima e jovem banda que acompanhou o cantor. Do primeiro compacto da carreira, lançado em 1970, compareceram “Só Morto – Burning Midnight”, em interpretação exasperada que deixa claro o quão modernos os ritmos de Jards soam depois de mais 40 anos, e a roqueira “Soluços”, parceria com Capinan. Quando a banda dá lugar aos solos do Macalé  e convidados, outra marca fundamental se apresenta: o excelente violonista dá conta do recado com louvor. Na emblemática “Anjo Exterminado” e no seminal samba “Falam de Mim” (Aníbal Silva / Eden Silva / Noel Rosa), pérola pinçada do repertório de Zé da Zilda (1948)  que Jards regravou no álbum “Amor, Ordem e Progresso” (1983), a sofisticação deste violão joãogilbertiano-hard-rock  fica muito evidente.

Na noite de estreia, dois convidados: um apagado Zeca Baleiro e o vivaz Walter Franco. Com Zeca, a dobradinha “Flor da Pele” (Zeca Baleiro) e “Vapor Barato” (Jards / Waly) , tal qual apresentado anos atrás no Acústico Gal Costa, funcionou muito bem, sendo aplaudida em cena aberta pela plateia totalmente lotada do teatro. O sumido Walter Franco, outro que está merecendo um tributo pela geração atual da música brasileira, roubou a cena em 3 números – com Jards e Zeca entoou seu grande sucesso “Respire Fundo”, do álbum homônimo lançado em 1978, e solando “Tutano” (2001) numa atuação voz e violão arrasadora. Os convidados voltariam ao palco para o número final, um tanto improvisado, que fechou a noite em grande estilo e aí sim, pelo tom de protesto, lembrou o Banquete dos Mendigos original – a obra-prima “Canalha” (Walter Franco) foi dedicada por Jards à atual situação política (e social) do Brasil.

Uma segunda apresentação de Banquete dos Mendigos será realizada hoje, 17.7, no mesmo Sesc Vila Mariana com participações de Thaís Gullin e Jorge Mautner.

Algumas fotos do show. Aqui.

O roteiro apresentado na primeira noite de Banquete dos Mendigos:

1. Let´s Play That (Jards Macalé / Torquato Neto)
2. Farinha do Desprezo (Jards Macalé)
3. Negra Melodia (Jards Macalé / Waly Salomão)
4. Só Morto – Burning Night (Jards Macalé)
5. Mal Secreto (Jards Macalé / Waly Salomão)
6. Flor da Pele (Zeca Baleiro) com Zeca Baleiro
7. Vapor Barato (Jards Macalé / Waly Salomão) com Zeca Baleiro
8. Respire Fundo (Walter Franco) com Zeca Baleiro e Walter Franco
9. Tutano (Walter Franco) solo de Walter Franco
10. Cachorro Babucho (Jards Macalé) com Walter Franco
11. Anjo Exterminado (Jards Macalé)
12. Falam de Mim (Anibal Silva / Eden Silva / Noel Rosa)
13. Dona do Castelo (Jards Macalé / Waly Salomão)
14. 78 Rotações (Jards Macalé)
15. Soluços (Jards Macalé / Capinan)
16. Farrapo Humano (Luiz Melodia)
17. Canalha (Walter Franco) com Zeca Baleiro e Walter Franco

Jards Macalé – Banquete dos Mendigos
com Zeca Baleiro e Walter Franco

Quando: 16.7.2013
Onde: Sesc Vila Mariana – São Paulo
Review: * * * *

1 comentário em “SHOW: Jards Macalé – Banquete dos Mendigos

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