ENTREVISTA: Lucas Vasconcellos lançando “Falo de Coração”

Lucas Vasconcellos (Foto: Divulgação)
Lucas Vasconcellos (Foto: Divulgação)

Multi-instrumentista inquieto que transita com desenvoltura por trabalhos paralelos que passam por produções de trilhas para cinema, televisão e teatro, além da criação no Letuce, duo com sua ex-esposa Leticia Novaes, o carioca Lucas Vasconcellos acaba de lançar seu primeiro álbum solo, o ótimo “Falo de Coração“.

Às vésperas do show onde tocará as novas canções pela primeira vez (05/12, no StudioRJ), o músico conversou comigo por email pra falar um pouco mais sobre a gênese do trabalho.

AE – O álbum, me parece, tem forte assinatura sua. Não somente as letras, mas toda arquitetura sonora com você tocando a maioria dos instrumentos. Você procurou uma afirmação conceitual ao tomar as rédeas do trabalho de forma tão assertiva?

Lucas Vasconcellos – Alguns trabalhos nascem de um conceito pré-definido. Não é o caso desse. O resultado sonoro desse disco é o encontro de toda uma vida colaborativa. Trabalhei e trabalho com artistas muito diferente entre si, desde o Rodrigo Amarante até a Letícia Novaes ou a Katia B. Isso me movimenta e me estimula a encontrar uma assinatura que costure essas minhas colaborações para que, ao mesmo tempo que eu sirva a um artista, eu possa aprender a ser eu mesmo dentro do trabalho de outro alguém. Ao gravar esse disco, eu tive um espaço criativo inédito na minha vida e pude experimentar o que fosse mais verdadeiro pra mim.

Os traços de experimentação em busca de novas soluções musicais ficam muito evidentes no “Falo de Coração”. Na sua música (e no som feito no Letuce), a busca por caminhos não tão óbvios é uma preocupação formal? Digo, há a intenção da busca pela diferença?

Lucas Vasconcellos –
 Sempre é motivo de orgulho pra mim e pros artistas que eu admiro ser considerado diferente. Não seguir uma tendência ou padrão, não rotular sua música esteticamente. Sempre que há alguma dificuldade em se classificar meu som, eu me alegro e penso: fiz do jeito certo, que é o meu jeito, que é o único que posso fazer sem um plágio de alguém.  E quando eu digo “dificuldade”, é uma dificuldade em rotular. Não em absorver amorosamente aquela mensagem. Não me interessa artisticamente criar dificuldades pra ser compreendido na mesma medida em que não me interessa ser hermético e cabeçudo só pra mostrar serviço. Nem sempre agrada. Esse disco, por exemplo, já está sendo taxado de um disco “triste”. Mas não acho deselogioso esse adjetivo. Acho que a vida, o Rio de Janeiro, as relações humanas como um todo não respeitam equilíbrios que um publicitário, por exemplo, tem que respeitar na hora de elaborar um trabalho.  Ser triste ou ser feliz na concepção poética de um trabalho deveria ser um exercício de sinceridade e não um briefing. As música que me magnetizaram ao longo da minha vida sempre foram o resultado da verdade de alguém.

“Leal”, segundo o release assinado pelo Marcio Bulk, pode ser entendida como uma homenagem ao Roberto Leal. É isso mesmo? Se sim, de onde veio a ideia, há uma admiração pelo cantor?

Lucas Vasconcellos –
 Eu adorava ouvir as fitas K7 do Roberto Leal que o meu avô tinha no carro. Um dia ele me levou no show, na casa de portugal, em Petrópolis. Eu devia ter uns 7 anos de idade.  Fiz a música “Leal” e ela ficou meio fadística. Ela fez parte de uma trilha sonora pra uma série de tv que eu fiz ano passado. Achei bacana e coloquei no disco. E o Roberto Leal nem canta fado, ele canta música tradicional portuguesa.

No álbum há imagens muito claras (de partida, no próprio título) que respaldam o tom confessional das letras das canções. Quais as inspirações pra composição desta estreia solo?

Lucas Vasconcellos –
 Realmente quis fazer um disco do começo ao fim, sem usar canções antigas ou sobras de outros repertórios. Tive a sorte de poder ter meu próprio estúdio ano passado, parei de dar aulas e pude me dedicar totalmente ao trabalho composicional. Vi que , entre um trabalho e outro, poderia elaborar esse disco. E foi o que fiz.
Liricamente, acho que meu processo dessa vez foi mais vazio de metáforas. Quis criar imagens de uma maneira mais direta. Pode chamar de confessional, se quiser. Tudo que eu fizer sempre será. As músicas desse disco são a minha forma de estar presente no mundo. E a minha presença se dá hoje dessa forma, contando as histórias que contei nesse disco.

O Letuce continua firme?

Lucas Vasconcellos –
 Firmasso! O terceiro disco vem aí com tudo, as músicas estão lindas e a gente deve gravar no início do ano. Já até fizemos alguns shows tocando essas novidades. Aguardem novidade logo logo.

Falo de Coração está disponível para audição via Soundcloud. Aqui.

No Rio de Janeiro, o álbum será lançado em show no StudioRJ, dia 05/12. Em São Paulo, um show no Puxadinho da Praça está marcado para 18/12.

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Lucas Vasconcellos – Falo de Coração
Lançamento: Agente Digital/Bolacha Discos, novembro/2013
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Aquela história que apenas uma audição de um disco não basta para aproveitar tudo que ele oferece é crível em Falo de Coração. Álbum de contornos introspectivos e densa malha sonora arquitetada por caminhos nada óbvios, a estreia solo do Lucas Vasconcellos ganha muito nos plays seguintes.

Criado após o fim de um relacionamento, Falo de Coração mescla sutis intenções poéticas a passagens explícitas sobre dores e anseios por horizontes mais solares. O fato do músico assinar solitariamente 7 das 11 músicas e tocar a maioria dos instrumentos do álbum reforça o caráter essencialmente autoral de um trabalho que resulta bem acima da média na produção daqueles que estão um tanto à margem da indústria musical brasileira – cada vez mais segmentada e fechada a experimentações.

Faixas como “O Amor Uma Frase Por Vez“, canção que abre o disco moldada pelo toque do banjo choroso tocado pelo próprio Lucas, “Eu Não Vou Chorar Por Fora” com os versos “a história vai ficar como está / e eu vou sumir / você também vai / e todos vão perguntar demais” que explicitam, doces e concisos, retrato atual da vida do músico, ou “Morfina” tema de pegada urbana e soturna que linka, mesmo que não intencionalmente, atmosfera parecida com a exposta em outro grande álbum do ano, o “Passo Elétrico” dos paulistas do Passo Torto, são bons exemplos do leque temático generoso que o disco aborda. Ainda sobra espaço pro pop delicado de “Seven Laughs“, parceria com Letícia Novaes que introduz o Letuce para lembrar que o duo continua na ativa e um transfado instrumental, “Leal“, acenando para influências lusitanas insuspeitas. Em resumo, Falo de Coração é ótimo lançamento já no fechamento de 2013.

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