Com inéditas de Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Karina Buhr, “De Normal Bastam Os Outros” confirma que o tempo de Maria Alcina é hoje

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Maria Alcina – De Normal (Bastam Os Outros)
Lançamento: Nova Estação / Eldorado, fevereiro 2014
Quanto: R$ 20, em média
Review: star-512star-512star-512star-512

Algo que nunca faltou à Maria Alcina foi personalidade. Não é diferente com este oitavo disco da carreira da mineira de Cataguazes, “De Normal (Bastam Os Outros)“, onde a cantora esbanja personalidade artística. Arquitetado pelo produtor Thiago Marques Luiz para comemorar os 40 anos de carreira da artista (efetivamente completados em 2012), De Normal  equilibra com habilidade uma boa safra de canções inéditas feitas especialmente para Alcina com regravações que ganham molduras contemporâneas cinzeladas pelo competente time de músicos arregimentados para a concepção do trabalho.

Das inéditas, “Eu Sou Alcina” (Zeca Baleiro) já abre o cd em tom de homenagem, com a cantora, a capela, conectando versos de contornos definidores que desaguam na faixa seguinte, escrita por Arnaldo Antunes e que dá título ao disco. Com inspiração indie valorizada pelas guitarras de Estevan Sincovitz, “De Normal…” é música que define a sonoridade moderna do álbum e flerta com outro trabalho da cantora, de 2003, onde Alcina se ligava à jovem cena musical do país em disco dividido com a banda Bojo.

Desde que ganhou notoriedade ao vencer o Festival Internacional da Canção, em 1972, Maria Alcina tem pautado sua carreira com uma mistura de provocação musical e estética com elogios à tradição, reverenciando o passado em resgates de canções das décadas de 1930 à 1960. Afirmando-se como autêntica pós-tropicalista, agora Alcina aposta em regravações inspiradas.  Em “Bigorrilho” (Paquito / Sebastião Gomes / Romeu Gentil), o dueto com Ney Matogrosso vem embalado em excelente arranjo de Rovilson Pascoal, numa espécie de coco onde o duelo sagaz de vozes dos cantores é um dos pontos altos do cd. O samba “Segura esse samba, Ogunhê” (Osvaldo Nunes), canção conhecida na voz da cantora Nalva Aguiar, primeira e original “rainha dos caminhoneiros”,  surge irmanado com “Dondoca” (Adoniran Barbosa / Hervê Cordovil), numa das ótimas sacadas do repertório. Olhando para a própria história, Alcina também acerta na nova versão para “Sem Vergonha“, canção de Jorge Ben lançada originalmente no cd “Bucaneira”, de 1992, com arranjo que remete diretamente à sonoridade explorada naquela  sua estrondosa estreia com “Fio Maravilha” e que agora vem incrementada pelo trompete de Guizado

Três outras inéditas são reservadas para o final do cd. Menos sedutora, “Cocadinha de Sal” (Karina Buhr) não chega a destoar do conjunto do álbum muito em conta de outro ótimo arranjo de Rovilson Pascoal. “Concurso do Bicho” canção entregue pela forrozeira Anastácia que alude à fase mais popular de Maria Alcina, nos anos 1980, quando a cantora emplacou hits de duplo sentido como “Prenda o Tadeu” e “Bacurinha” – o verso “a ré ganha” cantada em forma de refrão não deixa dúvidas. Mas o nível (alto) do trabalho logo é recuperado com a marchinha “Dionísio, Deus do vinho e do prazer“, ótima canção de Péricles Cavalcanti que encerra o disco com texturas carnavalizantes e atuais. É assim que “De Normal (Bastam Os Outros)” dribla com inteligência as armadilhas que um disco comemorativo poderia apresentar, fugindo do tom nostálgico e atestando com contundência que o tempo de Maria Alcina é hoje.

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