SHOW: “Mulheres de 80” mostrou que a Vanguarda Paulista, 30 anos depois, foi assimilada sem sobressaltos pela música brasileira

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Suzana Salles, Alzira E, Ná Ozzetti e Virgínia Rosa (Foto: Alexandre Eça)

Mulheres de 80 – Suzana Salles, Alzira E, Ná Ozzetti e Virgínia Rosa
Quando: 6.3.2014
Onde: Teatro Sesc Vila Mariana – São Paulo
Review:star-512star-512star-512 1/2

Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, os grupos Rumo e Premê foram alguns dos nomes que estabeleceram novos paradigmas para a canção popular, criando alternativas de mercado e abrindo um flanco importante para os artistas independentes – paulistanos num primeiro momento – nas décadas de 1970 e 1980. Se na gênese da Vanguarda Paulista (movimento que em perspectiva histórica nem era de fato articulado) o universo era masculino, foram as vozes femininas que deram vida a uma música que àquela época obteve visibilidade restrita pelo seu alto teor de experimentação e certa estranheza na arquitetura harmônica, mas que passados mais de 30 anos da sua dissolução parece bem melhor assimilada dentro do panorama da  música brasileira, fato que ficou bastante claro quando quatro dessas vozes seminais, “as meninas do Lira” Ná Ozzetti, Alzira E, Virgínia Rosa e Suzana Salles, subiram ao palco do teatro Sesc Vila Mariana para mostrar canções de suas carreiras solo que se confundem invariavelmente com o cerne do movimento.

Em Mulheres de 80, a diluição da surpresa do que antes era novo já pode ser sentida no número de abertura, com Suzana Salles entoando, contida, “Já Deu Pra Sentir” (Itamar Assumpção), canção registrada por Arrigo Barnabé no seu álbum Suspeito (1987),  que em cena com os arranjos do pianista Thiago Costa apontaram para caminhos mais convencionais, com passagens de beleza incontestável, sob direção musical de Mário Manga. Saindo um pouco do espectro do movimento, Virgínia Rosa surgiu injetando sensualidade na versão de “Bom Dia” (Swami Jr. e Paulo Freire), música lançada por Zizi Possi em 1993 e partiu jogando com o samba em “Volta Depressa“, pouco conhecida música de Paulo Vanzolini que abriu espaço para Alzira E olhar para o início da sua carreira, retornando ao eixo criativo da época que chegou à cidade e se enturmou com os “vanguardistas”, em “Vejo a Vida“, sua primeira parceria com Arrigo Barnabé para depois revelar lírica versão de “Homem Não Chora” (Renato Teixeira), tema moldado pelo cello de Mário Manga.

Suzana Salles, Alzira E, Ná Ozzetti e Virgínia Rosa (Foto: Alexandre Eça)
Suzana Salles, Alzira E, Ná Ozzetti e Virgínia Rosa (Foto: Alexandre Eça)

Mário Manga, um dos integrantes do grupo Premeditando o Breque, ainda se destacaria primeiro dividindo os vocais com Ná Ozzetti em “Rubens“, num registro casto que extraiu a malícia do tema que já teve gravação definitiva pela cantora Cássia Eller, e depois com seu cello na bela adaptação de “Sonora Garoa” (Passoca), melhor momento do show, com interpretação magistral de  Ná Ozzetti que trouxe à tona um  enlace dos universos rural e urbano, reafirmando seu status de grande cantora brasileira e que ainda brilharia na precisa e sutil ambientação de “Ladeira da Memória” (Zé Carlos Ribeiro). Dentro da sonoridade que aludia ao ambiente criativo da Vanguarda Paulista, Suzana Salles foi a que mais seguiu linkada ao movimento ao dar aguda interpretação à “Rapto Rápido” (Itamar Assumpção) e depois mostrar faceta agregadora chamando ao palco suas companheiras de geração para refazerem, em abordagem pop, “Que Tal O Impossível“, outra de Itamar Assumpção e primeiro dos cinco números a contar com todas as artistas em cena. Itamar, genial e figura central do movimento, que ainda seria lembrado no encerramento da noite, antes do bis, com “Adeus Pantanal” e a emblemática “Sutil“. Se um dia as inspirações que conceberam a primeira tentativa de se estabelecer um mercado de música independente no Brasil pareceram estranhas e pouco viáveis,  Mulheres de 80 mostrou que através das vozes femininas a Vanguarda Paulista foi assimilada sem maiores sobressaltos pela atual música brasileira e a obra derivada do encontro de tantos provocadores continua moderna e interessante mais de 30 anos depois do seu nascimento.

Algumas fotos do show. Aqui.

O roteiro da primeira noite de Mulheres de 80:

1. Já Deu Pra Sentir (Itamar Assumpção) por Suzana Salles
2. As Sílabas (Luiz Tatit) por Suzana Salles
3. Bom Dia (Swami Jr. e Paulo Freire) por Virgínia Rosa
4. Volta Depressa (Paulo Vanzolini) por Virginia Rosa
5. Vejo a Vida (Alzira E / Arrigo Barnabé) por Alzira E
6. Homem Não Chora (Renato Teixeira) por Alzira E
7. Rubens (Mario Manga) por Ná Ozzetti e Mário Manga
8. Sonora Garoa (Passoca) por Ná Ozzetti
9. Rapto Rápido (Carlos Rennó / Hermelino Neder) por Suzana Salles
10. Batuque (Itamar Assumpção) por Virgínia Rosa
11. Quyquyô (Geraldo Espíndola) por Alzira E
12. Ladeira da Memória (Zé Carlos Ribeiro) por Ná Ozzetti
13. Que Tal O Impossível (Itamar Assumpção) por Suzana Salles
14. Adeus Pantanal (Itamar Assumpção) por Ná, Virginia, Alzira e Suzana
15. Primeiros Erros (Kiko Zambianchi) por Ná, Virginia, Alzira e Suzana
16. Sutil (Itamar Assumpçã0) por Ná, Virginia, Alzira e Suzana
BIS
17. Marcha da Kombi (Wandy Doradiotto) por Ná, Virginia, Alzira e Suzana

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