SHOW: Em Água Lusa, Jussara Silveira acerta ao estabelecer diálogos entre as músicas do Brasil e de Portugal

Jussara Silveira no palco do Teatro Sesc Pompeia (Foto: Alexandre Eça)
Jussara Silveira no palco do Teatro Sesc Pompeia (Foto: Alexandre Eça)

Show: Jussara Silveira – Água Lusa
Quando: 27.3.2014
Onde: Teatro Sesc Pompeia – São Paulo
Review: star-512star-512star-512star-512 1/2

O diálogo entre as músicas brasileira e portuguesa proposto pela cantora Jussara Silveira no seu mais recente trabalho, Água Lusa (Dubas Musica, 2013), ganhou um capítulo complementar na noite desta quinta-feira (27), em São Paulo. Se no (ótimo) disco que deu origem ao show apresentado em duas noites no palco do Teatro Sesc Pompeia, Jussara empresta seu canto preciso exclusivamente à temas do compositor português Tiago Torres da Silva, em cena este universo se expandiu com as presenças de Tiago e do músico português Pedro Joia, produtor do disco, com o toque da sua  guitarra portuguesa que dominou a sonoridade do espetáculo. Já no primeiro número da noite, quando “Sonhei Que Estava Em Portugal“, música de Moraes Moreira lançada em 1983 pela cantora Maria Bethânia no renovador álbum Ciclo, foi entoada por Jussara em off, a integração musical Brasil-Portugal começou a se delinear. Integração que se acentuou em canções conhecidas pelo público brasileiro como “Confesso“, música-símbolo da fadista Amália Rodrigues e “Fado Tropical” da dupla Ruy Guerra e Chico Buarque, que apareceram no roteiro entre as obras de Tiago.

Ainda que o fado, gênero comumente acompanhado de certa melancolia e algum exagero sentimental, tenha permanecido em primeiro plano no show, o canto cristalino de Jussara que se equilibra sutilmente entre a técnica perfeita e capacidade de exteriorizar emoções insuspeitas, conferiu leveza ao espetáculo que em momento algum cai na tentação do drama exagerado.

Jussara Silvera e o compositor português Tiago Torres da Silva
Jussara Silvera e o compositor português Tiago Torres da Silva (Foto: Alexandre Eça)

A cantora valoriza essa leveza até em números mais densos do roteiro como “O Mar Fala De Ti” (Ernesto Leite / Tiago Torres da Silva), música que é uma espécie de síntese de Água Lusa, ao retratar no ambiente poético português dois dos temas recorrentes do trabalho – o mar e o amor – e que aparece em cena tão bem moldado pelo piano de Sacha Amback, ou mesmo em “Nem As Paredes Confesso“, outra do repertório de Amália Rodrigues, reservada para o encerramento do show. Mas nem só de dramas foi composto o enlace das músicas dos dois países armado por Jussara. A alegria também deu as caras  nas vivazes abordagens de “Cantiga do Ladrão” (Rão Kyao / Tiago Torres da Silva) e na graciosa “Beijo Alentejano“, esta última com a adesão de Tiago Torres, em especial participação no show. Uma participação que coroou os diálogos propostos por Jussara e chegou ao seu auge no primeiro bis da noite, quando “Língua“, o seminal rap de Caetano Veloso que simplifica um conjunto de expressões  no seu refrão e constrói a imagem do que é a língua portuguesa com um sotaque tipicamente brasileiro ainda que remetendo diretamente a um olhar de integração lusitana, ganhou intensa abordagem no dueto dos dois artistas. Ao fim da noite, a sensação geral era a de que Água Lusa, o show, foi tão pertinente e belo quanto o disco que a ele deu origem.

Fotos do show. Aqui.

O roteiro da noite de estreia de Água Lusa

1 – Sonhei Que Estava Em Portugal (Moraes Moreira)
      Voltarei à Minha Terra (Armandinho Freire / Tiago Torres da Silva)
2 – Na Companhia de Fadistas (Miguel Ramos/ Tiago Torres da Silva)
3 – Meu Amor Abre a Janela (Armando Machado/ Tiago Torres da Silva)
4 – Confesso (Frederico Valério / José Galhardo)
5 – Uma Canção por Acaso (Pedro Joia / Tiago Torres da Silva)
6 – Sereia (Jaime Cavalheiro/ Tiago Torres Da Silva)
7 – Vou num Rio (Armando Machado / Tiago Torres da Silva)
8 – Beijo Alentejano (Carlos Gonçalves / Tiago Torres da Silva)
9 – Fado da Contradição (João Nobre / Lourenço11)
10 – Fado Tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra)
11 – Fado Mal Falado (Fernando Ávila/ Almeida Amaral/ Fernando Santos/ Paulo Menano)
12 – O Mar Fala de Ti (Ernesto Leite / Tiago Torres da Silva)
13 – Terra Estrangeira (José Miguel Wisnik)
14 – Calunga (Capiba)
15 – Cantiga do Ladrão (Rão Kyao/ Tiago Torres da Silva)
BIS:
16 – Língua (Caetano Veloso)
17 – Nem às Paredes Confesso (Artur Ribeiro / Max / Ferrer Trindade)

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