SHOW: Arrebatadora, Elza Soares situa a obra de Lupicínio Rodrigues em universo jazzístico

Elza Soares no palco do Teatro Paulo Autran (Foto: Alexandre Eça)
Elza Soares no palco do Teatro Paulo Autran (Foto: Alexandre Eça)

Elza Soares – 100 anos de Lupicínio Rodrigues
Quando: 11.5.2014
Onde: Teatro Paulo Autran – São Paulo
Review: star-512star-512star-512 1/2

Logo no início do seu novo show, criado para comemorar os 100 anos do nascimento do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974), Elza Soares confessou que ouviu toda a discografia do sambista carioca Jamelão, cantor que é considerado o grande intérprete da obra de Lupicínio, para definir o repertório do espetáculo que cumpriu temporada de três noites na capital paulista. E constatou que, dada a dimensão da voz de Jamelão, o cantor só não tinha a mesma estatura artística e prestígio de um Frank Sinatra por ser negro. Para Elza, Jamelão ultrapassa a barreira conceitual de sambista brasileiro e entra no rol dos maiores cantores de jazz que ela já ouviu. E, como para sustentar tal constatação, foi no terreno do jazz, gênero que dominou o panorama sonoro do show apresentado de forma arrebatadora pela cantora que parece superar as limitações da idade (alegados 77 anos) ao surgir em cena com a voz em plena forma, com os mesmos brilho e vigor de tempos passados, que Elza situou a obra de Lupicínio.

Em roteiro algo teatral de 17 números, contando casos dos seus 65 anos de carreira, a cantora abriu pouco espaço para o samba e recriou as dores de amores do compositor gaúcho com perfeito entendimento deste universo de relações desfeitas e abandonos sentidos. Com o (jovem) quinteto de músicos sob direção do saxofonista Eduardo Neves pesando a mão na alternância de andamentos, recurso que atingiu o auge em “Nervos de Aço“, música apresentada com introdução de guitarras roqueiras que evoluíram para uma levada de salsa, e soou um tanto repetitivo ao longo dos 90 minutos do show, foi mesmo a atuação soberba da Elza a responsável pelo êxito da homenagem. Suas interpretações cheias de estilo dos clássicos “Loucura” e “Cadeira Vazia“, canções que são símbolos da dor-de-cotovelo nacional reveladas com um suingue impensável dada a densa tessitura de sofrimento imposta em suas letras, ou das menos conhecidas “Caixa de Ódio” e “Eu Não Sou Louco“, número de alta voltagem dramática, todas reverenciadas pelo público com aplausos de pé, já seriam suficientes para justificar o projeto que joga luz a uma obra às vezes burramente catalogada como datada, ou pior, arregimentada como de gosto duvidoso. Parte desta atmosfera sentimental ora mostrada com grandes recursos estilísticos , o único tema a fugir à obra de Lupicínio, “Deixa Isso Pra Lá” (Alberto Paz / Edson Menezes)  apareceu fechando o roteiro com pegada rap para lembrar o sambista Jair Rodrigues, grande amigo da cantora, que saiu de cena no início deste mês. Encerramento amoroso, de explícita emoção, que não maculou o conceito do espetáculo e caiu bem numa noite de provas irrefutáveis que Elza Soares ainda é a tal.

O roteiro apresentado na terceira noite do show em homenagem ao centenário de nascimento de Lupicínio Rodrigues.

1. Exemplo (Lupicínio Rodrigues)
2. Esses moços (Lupicínio Rodriges)
3. Nunca (Lupicínio Rodrigues)
4. Loucura (Lupicínio Rodrigues)
5. Ela disse-me assim (Lupicínio Rodrigues)
6. Quem há de dizer (Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves)
7. Cadeira vazia (Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves)
8. Vingança (Lupicínio Rodrigues)
9. ?? (tema instrumental de Eduardo Neves)
10. Anita (tema instrumental de Eduardo Neves / Guto Wirtti)
11. Volta (Lupicínio Rodrigues)
12. Caixa de ódio (Lupicínio Rodrigues)
13. Eu não sou louco (Lupicínio Rodrigues / Evaldo Rui)
14. Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins)
15. Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues)
16. Deixa Isso Pra Lá (Alberto Paz / Edson Menezes)
Bis:
17. Felicidade (Lupicínio Rodrigues) com citação de Prenda Minha (Domínio Público)

Galeria de Fotos

Fotos: Alexandre Eça

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