LANÇAMENTO: Autoral, “Meus Quintais” é rigoroso exercício da independência artística de Maria Bethânia

capa_bethania

Álbum: Maria Bethânia – Meus Quintais
Lançamento: Biscoito Fino – junho / 2014
Quanto: R$ 29, em média
Review:  star-512star-512star-512star-512 1/2

A carreira da cantora Maria Bethânia sempre foi pautada por uma independência artística incomum – os ventos indomáveis do hoje alquebrado mercado fonográfico nacional, que arrastam artistas para paragens estéticas por vezes soturnas, nunca chegaram com força ao quintal da baiana que está às portas de completar cinquenta anos de exercício pleno de seu ofício. Meus Quintais, seu novo disco que chega ao mercado neste mês de junho em edição da gravadora Biscoito Fino, parece confirmar, cristalino, essa independência. É disco conceitual que olha para interiores de personagens brasileiras tal qual dois outros títulos da sua extensa discografia: o pouco ouvido Olho D´água (1992) e o premiado Brasileirinho (2003).

Alguns críticos (e mesmo fãs) irão reciclar comentários sobre a repetição temática da cantora. Foi assim em 2012, quando Oásis de Bethânia, seu trabalho de estúdio anterior, foi recebido com certa frieza por uma parcela de ouvintes que esperavam uma retomada da Bethânia de pegada mais urbana, da cantora de motel, da campeã de execução em rádios. Muitos cobraram, sem grande alicerçamento retórico, até um pouco ingênuos, que Bethânia soasse novamente transgressora como há 40 anos. A cantora parece não ter dado muita atenção às críticas. E até por isso mesmo, Meus Quintais se insinua transgressor nas suas 13 faixas e nelas Maria Bethânia assenta certezas artísticas com absoluta consciência.

As mágoas e o rancor que parecem ter pautado o Oásis, desapareceram no novo disco. Meus Quintais é suave e se expõe amoroso. Abre mão de orquestrações pomposas para acender em primeiro plano a luz de uma sonoridade semiacústica, com violas de inspiração caipira, com percussões que acompanham, delicadas, um roteiro irretocável de temas que giram em torno de reminiscências da sua juventude e acenam mais interiorizados e menos exibicionistas. Assim, delicado, o disco é aberto com o toque quase camerístico do piano de André Mehmari em “Alguma Voz” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro). É ela que introduz, abrangente, um repertório repleto de ineditismos. Chico César comparece brilhante nas poesias de “Xavante“, faixa  emoldurada pela guitarra portuguesa de João Gaspar e em “Arco da Velha Índia“. Adriana Calcanhoto dá o sopro de contemporaneidade ao disco com “Iara“, outra faixa onde o guitarrista João Gaspar se destaca e que vem linkada com o excerto de texto da escritora Clarice Lispector, “Uma Perigosa Yara“. No quintal de Bethânia, o recôncavo da Bahia, seu berço, tem grande participação nas novas do compositor Roque Ferreira que aparece com “Imbelezô Eu“, “Vento de Lá” e “Candeeiro Velho“, todas mais expansivas dentro do conceito sonoro do álbum, mas sobra espaço para o Rio de Janeiro, cidade que acolhe a cantora desde os anos 1960. Não soa estranho, portanto, que um samba de enredo surja tão bem encaixado entre inspirações de mata adentro, caboclos e índios. “Povos do Brasil“, o samba do compositor carioca Leandro Fregonesi é outro ótimo achado de Meus Quintais. Em entrevista para anunciar o lançamento, Bethânia explicou que o disco é dedicado “aos meus, aos que já se foram”, e assim que a regravação do samba canção de Custódio Mesquita e David Nasser, “Mãe Maria“, música que já tinha recebido atenção da cantora em 1976 no álbum Pássaro Proibido, traz a tona a memória de Dona Canô (1907 – 2012), mãe da cantora, a quem o trabalho parece ser realmente dedicado. Ainda dentro da abrangência do seu quintal, Bethânia atravessa o conceito interiorizado do disco para olhar para a cidade, na atmosfera urbana de “Dindi” (Aloysio de Oliveira / Tom Jobim), o standard bossanovista que ganha arranjo do maestro Wagner Tiso com moldura flutuante do flugel horn de Jesse Sadoc, fechando o disco de forma coesa e sem sobressaltos. Com completo domínio do seu canto, ao falar de um Brasil por vezes escondido em recantos distantes, Maria Bethânia faz de Meus Quintais um livre exercício de independência artística, que retoma as bases autorais da sua obra e que é também seu melhor disco em mais de uma década.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s