Com o explosivo Rainha dos Raios, Alice Caymmi faz tremer as bases da morna MPB

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Alice Caymmi – Rainha do Raios
Lançamento: Joia Moderna – Setembro / 2014
Review: star-512star-512star-512star-512 1/2

A terceira geração da família Caymmi esta aí. Não me vem à cabeça outra dinastia familiar que seja tão relevante na música brasileira. Do patriarca gênio da raça Dorival na geração inaugural, passando pela nobreza de Nana, Dori e Danilo e agora chegando em Alice, os Caymmi são uma verdadeira reserva de talento. Quem assistiu ao show Dorivália, no início de 2014, pode testemunhar o nascimento de uma estrela. Alguns (poucos) que torceram o nariz para a subversão conceitual que Alice promoveu a partir da obra do avô, reclamaram de uma ou outra imperfeição técnica da cantora, sem aventar que há (inúmeras) qualidades que fazem um grande artista e que vão muito além do rigor técnico, da nota certa, do tempo ideal. Dorivália, aquele show de atmosfera anárquica e carnavalizante era só o início. Em Rainha do Raios, Alice Caymmi se estabelece. Lançado neste mês de setembro em edição da gravadora carioca Joia Moderna, o disco é explosivo. Quente, antenado, certeiro.

O peso-desafio do segundo disco parece não ter chegado à cantora. Mesmo nos momentos mais densos do repertório escolhido para compor o álbum, Alice dá um drible na sisudez e faz sua voz ecoar leve, sem qualquer ranço de dramaticidade cansativa. Abre o disco luminosa, em tons épicos, com “Como Vês” (Bruno Di Lullo / Domenico Lancelloti), tema retirado do terceiro disco da banda carioca Tono e já na segunda faixa alça alto voo estilístico na regravação da super-masculina “Homem” (Caetano Veloso), confundindo gêneros e transgredindo intenções. Grande trunfo do trabalho, a produção de Rodrigo Strauz ilumina as nove faixas de Rainha do Raios. Pelos mãos do jovem produtor carioca, o álbum ganha contornos sonoros contemporâneos, com samplers bem escolhidos, timbres experimentais e ruídos eletrônicos que servem de base para a voz grave de Alice preencher espaços com segurança e sagacidade. O desassombro da cantora ao abordar uma música como “Meu Mundo Caiu“, marca registrada da cantora Maysa é uma prova da ousadia de Alice. Ousadia também sugerem as regravações do delicioso funk melody “Princesa” (MC Marcinho) e da seminal “Iansã“, canção composta em 1972 por Gilberto Gil e Caetano Veloso cuja versão arrasa-quarteirão de Alice Caymmi me parece definitiva. Sem preocupação de parece cult, cool ou guardiã do conceito de bom gosto estabelecido, Alice acena para o sucesso radiofônico com uma balada feita em parceria com Michael Sullivam, “Meu Recado“, e saca do repertório da cantora Lilian Knapp, uma feliz e carismática regravação de “Eu Sou Rebelde” (versão de Paulo Coelho para tema de Manuel Alejandro e Ana Magdalena), flertando sem timidez como o universo popular. Há um mar de referências em Rainha dos Raios e todas elas se encaixam perfeitamente. Ao fechar o álbum com “Jasper“, a parceria de Caetano Veloso com os Ambitious Lovers Peter SchererArto Lindsay extraída do outrora vanguardista disco de Caetano, “Estrangeiro” (1989), Alice também sublinha o ótimo tino para a escolha do repertório – mesmo que algo óbvio -, evocando aquelas qualidades indispensáveis para uma grande intérprete, que vão além da técnica impressa por um canto apurado.

Com este explosivo segundo disco, Alice, uma autêntica Caymmi, rainha dos raios e trovões, faz tremer as bases da morma MPB.

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