LANÇAMENTO: Em Convoque Seu Buda, Criolo abraça “Deus e todo o mundo”

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Criolo – Convoque Seu Buda
Lançamento: Oloko Records, Novembro/2014
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Desde o sucesso do seu segundo disco, o ótimo Nó na Orelha (2011), o rapper paulistano Criolo tornou-se figura de destaque nos setores mais tradicionais da música brasileira. Ganhou afagos públicos de Chico Buarque e Caetano Veloso, saiu em turnê com Milton Nascimento, foi cantado por meio mundo da MPB – de Ney Matogrosso a Gal Costa – e aos poucos o rap, força motriz do seu trabalho, foi ficando em segundo plano. Criolo soube se adaptar a esse universo de tradições musicais arraigadas, por vezes excludente, aparentemente sem grandes sobressaltos, cantando sambas, baladas, cocos e maracatus com alguma desenvoltura. Com quase três anos sem lançar material inédito, muitos passaram a perguntar – mas e o rap? Convoque Seu Buda, o terceiro disco do cantor, vem pra responder perguntas e assentar o lugar do artista no espectro da música brasileira.

Recém lançado em escala nacional e já fazendo barulho, o novo álbum, assim como o Nó Na Orelha, parte do rap em direção a ritmos e gêneros musicais variados. Há grandiloquência em Convoque Seu Buda. A produção, requintada, a cargo de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, é uma das melhores deste ano. Tão boa que quase ofusca o discurso do rapper. Discurso que surge moldado em poesia dura, sem firulas, atirando para todos os lados com imagens de força incontestável. A faixa-título do trabalho é um exemplo, com seu olhar impiedoso para as mazelas das zonas periféricas da cidade de São Paulo, clamando aos deuses alguma salvação, qualquer que seja, em intenções que surgem resumidas em verso que decreta que “é humilhação demais que não cabe nesse refrão“. O rap também baixa com intensidade em “Duas de Cinco“, “Esquiva de Esgrima” e “Plano de Voo“, faixas conectadas ao hip hop original feito pelo músico desde sua estreia fonográfica com o obscuro Ainda Há Tempo (2008). Partindo dessa gênese referencial a sua criação artística, Criolo expande seu som rumo às tradições da MPB pós-tropicalista. O samba aparece em “Fermento Pra Massa“, tema com brilhante arranjo de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, o forró dá as caras em “Fio de Prumo (Padê Onã)“, faixa com participação luminosa da cantora Juçara Marçal, e o baião convida para dança em “Pegue Pra Ela“. Nestes momentos de abertura conceitual o disco perde um pouco de força e se fragmenta em certa desconexão entre música e letra. Fica a ligeira sensação de que estamos ouvindo, na verdade, uma coletânea de sucessos de vários artistas, fato corroborado pela produção musical que aplica variados efeitos de tratamento à voz do cantor. Não é um grande problema, mas desconcerta.

Convoque Seu Buda devolve Criolo aos braços do rap e ao universo hip hop paulistano. E como complemento, sagaz continuação conceitual do estrelado Nó Na Orelha, não tira o artista do espaço conquistado junto ao mainstream da música brasileira. Nesse sentido, o álbum se mostra grande, abraçando Deus e todo mundo.

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