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Juliana Amaral estreia Açoite cantando um Brasil interior, que não pode dar certo

Juliana Amaral na estreia de Açoite (Foto Alexandre Eça)
Juliana Amaral na estreia de Açoite (Foto Alexandre Eça)

Show: Juliana Amaral – Açoite
Quando: 4.6.2016
Onde: Teatro Anchieta – São Paulo
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A precisão do canto de Juliana Amaral na estreia de Açoite, show que levou pela primeira vez aos palcos o repertório do recém-lançado e elogiado quarto disco da cantora paulista, dá sentido a um Brasil que teima em dar certo. No caso, o Brasil que está dando certo não é, como se poderia supor, aquele esperado. Pelos versos do texto Brasil, um projeto vitorioso, de Luiz Antonio Simas, recitado com brando espanto pela cantora na parte final do espetáculo – e recebido com entusiasmo pela plateia que lotava o Teatro Anchieta, em São Paulo-,  o país excludente e inverossímil, que anda fora do compasso, aguarda, ansioso, dar errado.

Em Açoite, esse país cantando por Juliana caminha entre o rural e o urbano, por vezes combinando ingenuidade e perspicácia. No toque das cordas do violonista João Paulo Amaral, o Brasil das modas de viola ilumina a cena na trinca Brado Aberto, Padecimento e Rancho Vazio, esta última extraída do repertório da dupla Tonico e Tinoco, e na delicadeza de Rio de Lágrimas, canção que alude a um país caipira de singela beleza. Em um palco nú, tendo como adereços apenas alguns balões que a própria cantora posicionou em cena aberta no início do show, a contundência de Açoite se revela nas crônicas do cotidiano urbano registradas no álbum. Um Trem para as Estrelas, Cosme, Marcha do Homem Bala, Pra Rua, Desvão e Gases Puro mostram inspirações inconformadas, com sentimentos que são, a princípio, resignados, mas que aguardam o momento oportuno para insurgirem. Há pressão e tensão na desesperança lançada em cena por Juliana, sem grandes pausas entre uma canção e outra. Porém, o espetáculo está longe de ser asfixiante, resultando em obra mais leve que o disco. Mesmo a soberba versão de andamentos entrecortados de Matita Perê, que a interpretação da cantora faz revelar novos sentidos nos versos de Paulo Cesar Pinheiro, emociona sem cair no drama banal. Alinhada com a tradição da música motriz do país, Juliana quer, também, sambar. E o faz através dos versos e do ritmo da grande Vassalo do Samba, de Ataufo Alves, tema que abre o show, e já no bis, com Quero Sambar meu Bem, de Tom Zé. Entre os dois sambas, na noite de estreia de Açoite, um Brasil em desalinho, interior e urbano, foi desafiado a dar errado.

O setlist da estreia de Açoite

1. Intro
2. Vassalo do Samba (Ataufo Alves)
3. Rio de Lágrimas (Tião Carreiro / Piraci / Lourival do Santos)
4. Matita Perê (Antonio Carlos Jobim / Paulo Cesar Pinheiro)
5. Carta (Tom Zé)
6. Cosme (Douglas Germano)
7. Um trem para as estrelas (Gilberto Gil / Cazuza)
8. Brado aberto (João Paulo Amaral)
9. Padecimento (Carreirinho)
10. Rancho vazio (Anacleto Rosas Jr / Arlindo Pinto)
11. Desvão (Juliana Amaral / Humberto Pio)
12. Marcha do homem bala (Douglas Germano)
13. Texto – “Brasil, um projeto vitorioso” (Luiz Antonio Simas)
14. Pra rua (Juliana Amaral / Douglas Germano)
15. Léo (Milton Nascimento / Chico Buarque de Holanda)
16. Gases Puro (Lincoln Antonio / Stela do Patrocínio)
Bis
17. Quero sambar meu bem (Tom Zé)

Fotos

Fotos de Alexandre Eça

1 comentário em “Juliana Amaral estreia Açoite cantando um Brasil interior, que não pode dar certo

  1. O Brasil vai dar certo, porque eu quero – Frase de Caetano Veloso.

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