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Claros Breus é momento luminoso de Maria Bethânia e da música brasileira em 2019

A eletricidade do público que lotou o imenso Credicard Hall, nesta sexta-feira, 2, era perceptível momentos antes de Maria Bethânia subir ao palco para mostrar pela primeira vez na capital paulista o show que teve quatro concorridíssimas apresentações intimistas (ensaios abertos, como definiu Bethânia em recente coletiva) no Rio de Janeiro. Palmas, assovios. Comentários e curiosidade para saber qual figurino a cantora usaria. Garçons andando de um lado para outro, apressados, explicavam que a cantora proibira o serviço depois do início do espetáculo.

Quando, enfim, as cortinas se abriram, com protocolares 30 minutos de atraso, aquele pequeno universo de devotos (4 mil pessoas na gigantesca casa de shows) entrou em suspensão. Os gritos eufóricos deram lugar ao silêncio atento. Claros Breus chegava formatado para turnê de carreira, com Bethânia “pronta pra cantar”. 

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Maria Bethânia. Foto Alexandre Eça

Deslocado de lançamento de disco (Bethânia lançará dois álbuns até o fim do ano, um com canções em homenagem à escola de samba carioca Mangueira e outro com repertório inédito),  Claros Breus é momento luminoso na longeva carreira da cantora. Aos 73 anos, Bethânia não demonstra desgaste vocal. Pelo contrário, parece cantar melhor do que nunca. Os gestos estão sempre lá – mãos se lançando aos ares, o jogo de cabelos, as frases sublinhadas com assertividade, os olhares carregados de intenções.

A fina costura do roteiro de 33 números (37 músicas e textos) contempla uma primeira parte de atmosfera urbana, com músicas como Drama, Sangrando, De todas as maneiras, Anjo Exterminado, Pernas, Lama, Gota de Sangue, Gente e Cobras e lagartos, todas raras nos setlists da cantora. Sampa, de Caetano Veloso, surge como um carinho para a plateia paulista. Bethânia dribla as tensões naturais de uma estreia conversando com o público e contando histórias dos shows da carreira e seus laços com São Paulo. Nesta primeira parte do show, ao lado de músicas inéditas como a inspirada A Flor Encarnada (Adriana Calcanhoto), sucessos absolutos fazem os fãs acompanhá-la em coro – Olhos nos Olhos, Grito de Alerta (apresentada à capela) e a popular Evidências, embalada pela elegância do toque do piano de Marcelo Galter, voltam a empolgar gritos de “soberana” e “absoluta”.

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Foto Alexandre Eça

Claros Breus mostra sutis renovações na sonoridade de Bethânia – a banda arregimentada pelo maestro baiano Letieres Leite vem com uma base rítmica forte com Pretinho da Serrinha e Luisinho do Jejê na percussão, além da sofisticação harmônica embalada pelo violão do virtuose Carlinhos Sete Cordas e o baixo do cativo (de Bethânia e Chico Buarque)  Jorge Helder. Mas mesmo com a nova banda, o som jamais altera e influencia o estilo já consagrado da cantora. Bethânia continua à vontade no seu quintal.

O show ganha ainda mais peso na segunda parte. Depois do solo da banda, Bethânia volta ao palco jogando luz a um Brasil que parece insistir no desejo de se alocar nas trevas do atraso. As inéditas Águia Nordestina (Chico César),  Luminosidade (Chico César, compositor que se destaca no roteiro) e Músicas, Música (Roque Ferreira) se juntam a interpretações de Yayá Massemba (em versão menos sedutora que a apresentado no arrebatador show Brasileirinho de 2003), Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira), Capira de Fato (Inezita Barroso) e, principalmente, História pra Ninar Gente Grande, o samba-enredo da escola de samba Mangueira, campeã do carnaval deste ano, arrebatam pelo diálogo estilístico e algo contestador. São momentos maiores de um espetáculo que reverencia o melhor do Brasil e em que a artista revela atenção ao país contemporâneo. Claros Breus não é somente um momento luminoso de Maria Bethânia, é também da música brasileira em 2019.

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Foto Alexandre Eça

O roteiro assinado por Maria Bethânia e Bia Lessa na estreia nacional de Claros Breus: 

1. Pronta pra cantar (Caetano Veloso)
2. Drama (Caetano Veloso)
3. A flor encarnada (Adriana Calcanhotto)
4. O universo na cabeça do alfinete (Lenine / Lula Queiroga)
5. Sangrando (Gonzaguinha)
6. Juntar o que sentir (Renato Teixeira)
7. De todas as maneiras (Chico Buarque)
8. Pernas (Sérgio Ricardo)
9. Poema sujo (Ferreira Gullar) / Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi / Carlos Guinle)
10. Gota de sangue (Angela Ro Ro)
11. Lama (Lucio Dalla / Alice de Vasconcellos Chaves / Paulo Marques)
12. Sampa (Caetano Veloso)
10. Anjo exterminado (Jards Macalé / Waly Salomão)
11. Cobras e lagartos (Sueli Costa)
12. A beira e o mar (Roberto Mendes / Jorge Portugal)
13. Gente (Caetano Veloso)
14. Grito de alerta (Gonzaguinha)
15. Olhos nos olhos (Chico Buarque)
16. Brincar de Viver (Guilherme Arantes)
17. Evidências (José Augusto / Paulo Sergio Valle)
18. Da taça (Chico César)
19.  Texto / Yayá Massemba (Roberto Mendes / José Carlos Capinam)
20. O poeta come amendoim (texto – Mario de Andrade) / Sinhá (Chico Buarque / João Bosco)
21. História pra ninar gente grande (Tomaz Miranda / Danilo Firmino / Deivid Domênico / Márcio Bola / Ronie Oliveira / Manu da Cuíca)
22. Caipira de fato (Inezita Barroso)
23. Águia nordestina (Chico César)
24. Sonho Impossível (versão de Chico Buarque e Rui Guerra para de Impossible Dream, de Mitch Leigh e Joe Darion)
25. Luminosidade (Chico César)
26. Tocando em frente (Almir Sater / Renato Teixeira)
27. Sete trovas (Consuelo de Paula / Rubens Nogueira / Etel Frota)
28. Rosa dos Ventos (Chico Buarque)
29. Músicas, música (Roque Ferreira)
30. Imagens (Sueli Costa)
31. Bar da noite (Haroldo Barbosa / Bidu)
Bis
32. Purificar o Subaé (Caetano Veloso) / Encanteria (Paulo César Pinheiro)
33. O que é o que é (Gonzaguinha)

1 comentário em “Claros Breus é momento luminoso de Maria Bethânia e da música brasileira em 2019

  1. Iêda Lúcia

    E Belém? Não está na turnê desse show?
    Estamos aguardando.

    Curtir

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